”Acaso o meu coração se irá embora
Como as flores que perecem,
O meu nome algum dia será nada ?
O meu renome será nada sobre a terra ?
O meu coração algum dia será nada ?”
POEMA AZTECA
”Acaso o meu coração se irá embora
Como as flores que perecem,
O meu nome algum dia será nada ?
O meu renome será nada sobre a terra ?
O meu coração algum dia será nada ?”
POEMA AZTECA
Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha
da vida, sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou
mistério
A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos
a sério.
Lya Luft
“Se acaso as coisas
não são coisas em si mesmas,
mas só são coisas quando percebidas,
porque direi das coisas que são belas?”
António Gedeão
Sérgio Xarepe
In “Em lugar das mãos o mundo.”
Olho os amigos como quem se despede,
uma vez por dia. Olho-os para que não os esqueça,
para que se guardem as suas imagens dentro
das pálpebras.
Hoje chove porque me esqueço aos poucos
de onde vieram. Termino o dia pensando neles,
nos amigos.
E as suas palavras realçam-me as
marcas que tenho pelo corpo, erguem-se
pelas mãos as suas vozes quando todos
os outros se calam
falam como amigos.
O corpo é uma febre conjunta – como que se
estendesse pela memória o desenho de um
país que se guarda na algibeira ao partir – e
continuo a partir daqui, onde os barcos viajam,
onde as gaivotas chilream
enquanto o sal se estende pelas minhas
narinas.
O vento alarga-me a roupa que se
moldou ao sabor dos dias. Penso no hoje e ele
raia-se pelo rio, surgem palavras de apreço
pelas luzes pelas ruas
e os amigos soltam-se de nós
Como uma prisão de espuma. São um momento
em que a fome se torna grande demais para os olhos,
onde tudo o que jaz à nossa volta é efémero
perduram como pequenas árvores em torno
de nós.
Devolvo-lhes um tempo de cada vez. Restítuo ao
que foram o peso das letras e dos campos – respirámos,
em espaços, o mesmo ar.
É quando se nos cresce um soluço pela garganta
que vemos – a chuva nada mais é que um som
- aí lembramos aos amigos o que somos
e porque os olho com o volume da despedida nas mãos.”
Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.
Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.
Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .
Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.
David Mourão Ferreira
“Tenho um mamilo sempre erecto e
outro sempre murcho
ora bem,
a interpretação que faço do fenómeno
embora duvidando que entusiasme alguém
é a seguinte:
um pressente coisas de que o outro nem suspeita
coitado do primeiro
quando não há nada
coitado do segundo se quiser arrebitar”
Bénédicte Houart
Terás de perdoar a
tristeza do meu corpo,
ele não entende o que estou
a fazer.
Texto: Valter Hugo Mãe – mil e setenta e um poemas
Brasília: Thesaurus, 2008
Imagem: George Holz – Fall from Grace,
Los Chorros de Tala, Mexico, 1996
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